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Queremos filhos bonzinhos?

Depois da live que falei sobre as crianças boazinhas recebi muitos comentários de pessoas que foram essas crianças e que hoje vivem as consequências disto.
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Como pais é muito mais fácil e “gostoso” lidar com crianças boazinhas. Que não nos enfrentam, questionam, desobedecem ou contrariam nossas expectativas. Crianças que estão sempre seguindo nossos comandos, entrando na nossa “dança” e atendendo nossas vontades. Crianças que até podem falar, de vez em quando, naqueles momentos que nós sabemos que não fará muita diferença ou que não nos tira da nossa zona de conforto. Podem até demonstrar que não gostaram de algo ou que ficaram magoados e tristes conosco, mas que saiam disso rapidinho para não serem ingratos já que fazemos tanto por eles.

Quando vestimos a capa do “bonzinho” em nossos filhos ensinamos a eles que o foco deve ser sempre o outro. Ser bonzinho é ser agradável, ou seja, agradar. Agradar os outros, facilitar a vida dos outros, não frustrar ou magoar os outros, não irritar ou machucar os outros, não decepcionar ou entristecer os outros. Fazer o que os outros pedem, solicitam ou até mandam.
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E para isso é preciso se anular.

Um adulto que cresceu sendo ensinado a ser bonzinho é muito mais propício a ter relacionamentos abusivos em todos os seus âmbitos de convivência. Tem uma tendência muito grande a ter uma vida “medíocre” sempre buscando aprovação, concordância da maioria e espaço seguro de agradabilidade dos outros em seus atos, escolhas e decisões. Provavelmente não será o adulto que trará inovações, ou que puxará uma revolução. Não viverá em busca da sua realização e felicidade pois infelizmente estará lutando para agradar e ser bem visto em seus ambientes, mesmo que isso signifique abrir mão de si, de suas opiniões e algumas vezes até de seus valores.

Cada vez mais o mundo pede adultos autônomos, com pensamento crítico, que saibam ouvir e falar, discordar, “piramidar” em ideias uns dos outros e chegar em lugares jamais alcançados. Pessoas que saibam entrar e sair de conflitos de forma respeitosa, encontrando soluções, buscando objetivos nobres e crescimento constante, mas nunca se anulando

Adultos que saibam respeitar os limites uns dos outros e principalmente seus próprios limites, deixando claro até onde o outro pode chegar. Pessoas que saibam reconhecer e lidar com suas emoções e sentimentos sem jogar nada para “debaixo do tapete” e transformar tudo isso em autoconhecimento e desenvolvimento constante. E principalmente, pessoas que não se calem e se anulem diante do outro, perdendo a grande oportunidade e beleza que as relações nos trazem e que os desafios do mundo nos convidam a todo o momento.

E tudo começa na infância. Dos 0 aos 7 anos estamos criando as principais crenças sobre nós, principalmente na relação com nossos pais. Para isso, precisamos parar de calar nossas crianças. Precisamos convidá-las a ir experimentando essas habilidades. Precisamos mostrar que é conosco, pai e mãe, as pessoas que mais as amam que elas terão segurança para desenvolver tudo isso e encontrar apoio para lidar com o que ainda não conseguem.

Desafiante??? Muito. Pois nos convida a abrir mão dos elogios que nossos filhos recebem dos outros quanto estão nesse lugar de bonzinhos. Nos convida a engolir nossos orgulho e não querer obediência mas sim trabalhar para desenvolver habilidades como cooperação, responsabilidade, autodisciplina, generosidade, empatia, atenção e tantas outras.

Vale a pena??? Não tenho dúvidas que sim!

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