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Escorreguei de novo…

Hoje eu preciso escrever. Por mais que eu estude, faça terapia e me dedique ao autoconhecimento, por mais que eu trabalhe com isto e saiba muuuuito da parte teórica, na prática eu escorrego bastante na busca de um dia a dia realmente respeitoso na relação com meus filhos. Ao escrever, consigo colocar meus pensamentos em ordem, dar nomes aos sentimentos, relembrar e analisar fatos e tudo vai se encaixando. Nada é coincidência. Não é atoa que a filha “mais parecida comigo quando eu era criança” é a que mais me desafia nesta busca pelo respeito e amorosidade. Não é coincidência que nas semanas em que estou gripada ou retomando minha saúde, com privação de sono, dores e impossibilidade de colocar as obrigações e atividades que gosto em dia, são as semanas que “as crianças ficam mais impossíveis.” _ “Parece que fazem de propósito! Quando eu mais preciso vocês não colaboram!” Não, não é isso! Não é de propósito, não é coincidência, não é falta de colaboração. É consequência! Todo comportamento tem por trás necessidades não atendidas. Hoje, ao tentar atender as necessidades dos adultos (inclusive a minha) eu peguei a Martina no colo para colocar no carro com agressividade, desconsiderando totalmente sua vontade, opinião ou sentimentos, depois de pedir muitas vezes para ela ir para o carro porque tínhamos que ir embora logo para liberar a saída de outra pessoa que tinha o filho esperando na escola. Fui com ela no colo, cheia de raiva de não ter sido atendida, diante das “inúmeras” chamadas (À distância). Fui fazendo ameaças em seu ouvido de que eu nunca mais ia leva-la na casa da Dinda e de que ela estava sendo extremamente desrespeitosa, que não tinha feito o que combinamos, que não estava me ouvindo, que nem tentou conversar…. tudo para fazê-la se sentir culpada, arrependida de não me OBEDECER. No fundo era isso que eu queria. Obediência. Facilidade. Poder. Queria que ela abrisse mão dela para atender as necessidades dos outros, as vontades dos outros. Queria que ela fosse para o carro com um simples olhar. Queria que não precisasse me preocupar com suas necessidades, já que tenho as minhas para cuidar e que estão tão deixadas de lado. Queria sentir que eu estava no poder. Vim no carro ainda falando. Fazendo discurso e dando sermão. Que com certeza só fez com que ela se sentisse pior, uma pessoa ruim, que não ouve, não conversa, não respeita e blá, blá. Blá. Até que a Aurora me tirou da inconsciência dizendo:- _“A Matina não escuta, né mãe?” Congelei. Respirei fundo, voltei um pouco a consciência e falei. _“Ela escuta sim filha. É a mamãe que está nervosa.” Se a Aurora de 2 anos já estava criando um “rótulo” para a Martina, imagina o que estava se passando dentro da Mar. Sou educadora Parental, estudo muito, apoio inúmeras famílias, consigo clarear e ajudar as pessoas a encontrarem caminhos incríveis de solução diante de comportamentos super desafiantes, e realmente me considero muito boa no que faço, mas por mais que a teoria apoie muito nosso processo de transformação, o caminho é muito mais profundo e tem muito mais envolvido nessa busca de relações respeitosas. Hoje escorreguei, de novo. Mas não vou me deixar cair. Nesse assunto não pode existir o ditado: “em casa de ferreiro o espeto é de pau!” De forma alguma!!! Sei o quanto é desafiante, vivo essa busca diariamente e acho que por isso consigo realmente apoiar tanta famílias. Amanhã é um novo dia com mais essa oportunidade de aprendizado para mim e para as crianças. Podemos aprender juntos o que fazer quando somos desrespeitosos. Posso ser exemplo de arrependimento, reconciliação e correção. Posso ser exemplo de reconhecer a necessidade do autocuidado e de correr realmente atrás dele, para poder oferecer nossa melhor versão na relação diária dentro de casa. Posso olhar tudo isso como oportunidade até mesmo de fortalecer as crenças positivas da Mar sobre ela mesma, e sobre como é importante lutar por sua integridade e para ser ouvida, vista e considerada. Aí vocês podem me dizer: _“Mas Alci, você tinha que ir mesmo ué! Não tinha o que fazer, tinha que colocar ela no carro.” Será?!! Agora que estou mais calma e consciente, consigo pensar em algumas alternativas: 1. Poderia ter me aproximado dela e me conectado com ela um tempo antes, para entender como estava a brincadeira, como estava se sentindo e já combinar com ela um caminho respeitoso para a hora de ir embora que estava chegando, explicando a situação, que depois de se sentir ouvida de verdade ela provavelmente se abriria para ouvir; 2. Poderia ter tirado o carro para a pessoa sair e depois voltar e tomar atitudes muito mais respeitosas na condução desse “ir embora”; 3. Poderia criar um brincadeira para ir até o carro ( que funcionaria depois de eu me conectar com ela de verdade). 4. E poderia ter sido o exemplo de escuta que tanto cobrei dela, me aproximando para conversar na altura dela, com ouvidos de ouvir e não ficar simplesmente chamando e dando ordem de longe. Eu sei que não bati, não machuquei, não apertei, não fui violenta fisicamente, mas a violentei sim: emocionalmente, psicologicamente e até em sua integridade física ao ser retirada no colo sem sua vontade. É uma situação simples mas impactante e se for corriqueira define totalmente suas crenças sobre ela mesma e sobre como deve funcionar as relações no mundo e como ela deve se “portar” para ser agradável, amada e aceita. Todo comportamento tem por trás necessidades. Quais as necessidades da Mar? E quais as minhas?? Há muito a se caminhar para diminuir cada vez mais minha reações inconscientes e desrespeitosas. Seguimos!

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